A MOÇA E A VELA

Minha filha - dizia sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite - , quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas que não deve ver. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós.
- Qual o quê! - dizia a moça, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
A mãe repetia-lhe sempre o conselho, mas a moça com quem ia às vezes falar o namorado, continuou com o seu costume.
Vai por uma vez estava a teimosa à janela, quando ao soar a última badalada da meia-noite, viu aproximar-se-lhe uma figura, envolta num hábito muito branco, caminhando com passo apressado e trazendo, numa das mãos, uma vela acesa. A moça estava tão distraída, a pensar nos seus amores e naquele que esperava, que nem pavor sentiu. Foi como se não tivesse visto nada.
O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe que a guardasse até a sua volta.
Maquinalmente a rapariga foi colocar a vela sobre o leito e, quando voltou, já não encontrou mais o desconhecido.
Nem se lembrou dos conselhos da mãe nem a aparição lhe causou o menor abalo. Continuou à janela toda preocupada com os seus pensamentos de amores.

 

Às duas da madrugada, que é quando as almas penadas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O desconhecido chegou-se rapidamente e pediu-lhe a vela.
A moça foi buscá-la ao leito, mas, soltou um grito de horror. Em vez de vela, se lhe apresentou um esqueleto, estendido na cama. A caveira ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma.
Desde esse dia a moça ficou pateta, rindo e chorando à toa, e foi exemplo a todas as filhas desobedientes, no lugar onde esse caso se deu.